“É curioso como boa parte da imprensa brasileira, com impressionante fúria corporativista, se assumiu não só como referência da oposição aos governos considerados de esquerda, mas também como porta-voz da corrente neocon – e fazendo da manipulação uma regra” :: Luis Nassif
As mentiras propaladas sobre o PNDH-3
Na época, um telejornal, sem pudor algum, elaborou uma dessas lições de antijornalismo que, infelizmente, hoje abundam nos noticiosos. A matéria do telejornal sobre o PNDH-3 trazia a seguinte mensagem: o decreto (sic) presidencial que Lula assinou sem ler (sic) visava implantar uma ditadura comunista no Brasil. Com efeito, só por chamar o PNDH-3 de “decreto” já trazia tamanha desinformação que não sabemos se é má fé impregnada pela subestimação à inteligência do telespectador ou se é “apenas” mau jornalismo mesmo – ou as duas coisas juntas… E para tentar dar credibilidade à matéria, o telejornal lançou mão daquele velho truque de chamar um especialista de plantão para dar aval técnico, ou seja, transformar o absurdo em algo factível. No caso, o telejornal chamou para opinar um famoso jurista – porém já conhecido em seu meio por seu extremo conservadorismo. Quando foi ao ar, em plena campanha eleitoral, o noticioso, espalhado na Internet, firmou-se como uma poderosa peça publicitária contra o governo federal. Aliás, é curioso como boa parte da imprensa brasileira, com impressionante fúria corporativista, se assumiu não só como referência da oposição aos governos considerados de esquerda, mas também como porta-voz da corrente neocon (neoconservadorismo) – e fazendo da manipulação uma regra. Mas ainda que o falseamento da verdade já esteja manjado para alguns espectadores mais atentos, infelizmente é assim que boa parte da opinião pública tem sido moldada. O pior é que os vícios (na política, na sociedade, etc.) só aparecem quando os denunciados são adversários dos barões midiáticos ou quando alguém ousa ameaçar o status quo da oligarquia.
Outro exemplo cabal da manipulação midiática neocon
Se você fizer uma pesquisa, aqui no Brasil, sobre a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, em relação à liberdade de expressão no seu país, muito provavelmente será quase unânime as respostas convergindo para o fato de que o país vizinho está na beira do precipício da ditadura. Isto porque a imprensa brasileira foi quase unânime em martelar esta idéia. Este é, pois, um dos sintomas mais fortes para o Brasil começar a encarar seriamente esta realidade: necessitamos urgente de uma “Ley de Medios” que venha a libertar os brasileiros da oligarquia que tem sido muito danosa para a opinião pública e por conseguinte para a democracia. E esta tem sido a tônica da imprensa brasileira, ou seja, a liberdade de expressão vai até onde começa os interesses dos que controlam a nossa opinião. Nunca é demais lembrar que os grandes veículos de comunicação que até hoje imperam no Brasil serviram como dínamo da ditadura. Assim, desconfie sempre quando uma oligarquia tenta levantar a bandeira da liberdade; da democracia. E aqui entra a frase de Goethe, “Ninguém é mais escravo do que aquele que ilusoriamente acredita ser livre”, formando o seu sentido num contexto em que a imprensa brasileira é considerada por organismos internacionais como uma das mais livres do mundo – e em que um cidadão acredita que é livre por causa disto. Pois que a liberdade de expressão defendida pelas grandes corporações midiáticas é alma gêmea do neoliberalismo que legou ao planeta toda essa, digamos, “paz”, senso “humanitário” e “prosperidade” que ora testemunhamos.
Bom, sobre o suposto cerceamento à liberdade de imprensa na Argentina, resolvi ler, na íntegra, a chamada Ley de Medios que deixou a imprensa tupiniquim tão nervosa. O mais surpreendente não é o fato de inexistir na mesma um único vestígio de arbitrariedade, ou, ameaça à liberdade de expressão. O mais surpreendente (e de certa forma assustador) é que a Ley de Medios traz exatamente uma idéia contrária, ou seja, trata-se, na sua essência, de um monumental benefício à liberdade de expressão e opinião no país. É assustador, pois, constatar a que ponto chegou a falta de escrúpulos da mídia brasileira – que não titubeia em deturpar e atacar as intenções de uma lei simpática aos Direitos Humanos e que vai contra os interesses das corporações mau acostumadas em fazer o que quiser em países onde são frágeis as leis que disciplinam o direito fundamental à comunicação. E é exatamente desta fragilidade que eles encontram guarida para se perpetuar em sua condição oligárquica, concentrando há anos o poder da informação; a milionária verba publicitária das empresas…
O que pensam os organismos internacionais
Surpreso com esta revelação, resolvi buscar alguma referência para ter certeza de que eu não estava ficando louco; ou que tinha desaprendido a interpretar textos. E qual a referência que você, leitor, buscaria? A própria imprensa, ainda mais a brasileira? Ou a assessoria da ONU que trata dos Direitos Humanos? Porque se você buscar como referência a mídia, perceberá um óbvio corporativismo dos que defendem, por exemplo, o Grupo Clarin – o maior conglomerado midiático da Argentina que, com a nova legislação, viu diminuir o seu poder absoluto. Mas não precisa ir longe para saber que a lógica da concentração da comunicação é tão danosa, que é prevista na própria Constituição brasileira, mais precisamente no seu art. 220 § 5º: “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio“. SIM: a Constituição brasileira é burlada há décadas e, até hoje, ninguém ousou coibir tal abuso.
Enfim, pesquisei na (AINDA LIVRE!) internet e descobri que o braço da ONU que trata dos Direitos Humanos, mais especificamente na promoção da liberdade de expressão e opinião, atende pelo nome de Frank William La Rue, que foi um dos indicados para o Prêmio Nobel da Paz, em 2004. A propósito, é da própria ONU que a imprensa adora buscar referências para avalizar sua linha editorial, assim como alguma indicação para o prêmio Nobel. Mas quando a opinião da ONU vai contra os interesses da mídia, então você precisa procurá-la com lupa na internet… Então, peguei minha lupa e corri para saber o que pensava De La Rue sobre a “ditadura da Ley de Medios Argentina” que a imprensa estava denunciando. Eis o que disse o relator da ONU ipsis litteris: “Argentina is setting a precedent with this new Audiovisual Communications law, and I believe it is an example not only for Latin America but for the whole world“.
Ou seja: para o relator da ONU que trata da liberdade de expressão e opinião, a “Ley de Medios” recentemente aprovada na Argentina é um modelo que deveria servir de exemplo não apenas para a América Latina, mas para o mundo todo. Mais: no engendrar da legislação sobre a comunicação, o próprio governo argentino convidou Frank de La Rue para participar – observar e opinar – de todo o processo. Ele aceitou o convite e ficou fascinado com o que testemunhou.
Assista o vídeo com a entrevista de Frank La Rue à CNN em que ele fala do processo transparente e democrático com que foi elaborada a Ley dos Medios, sendo que todos os segmentos da sociedade (inclusive, claro, jornalistas) de todas as províncias argentinas foram ouvidos; depois que o assunto foi amplamente debatido, foi submetido ao Congresso e finalmente aprovado. Entretanto, para a mídia brasileira, isto é uma afronta à liberdade de expressão. Reflita sobre isto.
fonte: PORTAL LUIS NASSIF






Quem leu meu artigo anterior O antropoceno:uma nova era geológica deve ter ficado desolado. E com razão, pois, quis intencionalmente provocar tal sentimento. Com efeito, a visão de mundo imperante, mecanicista, utilitarista, antropocêntrica e sem respeito pela Mãe Terra e pelos limites de seus ecossistemas só pode levar a um impasse perigoso: liquidar com as condições ecológicas que nos permitem manter nossa civilização e a vida humana neste esplendoroso Planeta.


























Eles passarão
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