Publicado por: jromarq | 27/04/2010

Não é hora para destemperos

Lula combateu e derrotou o bipartidarismo durante a ditadura militar. O que o presidente defende, e com absoluta correção, é o confronto direto entre duas forças políticas antagônicas

A política é exímia no ofício de nos ensinar que a cautela, muitas vezes, constitui o melhor caminho. Devemos, sempre que possível, manter a atenção quanto a declarações motivadas por impulsos momentâneos, pelo desconforto causado por tendências, por movimentos partidários aparentemente desfavoráveis – sobretudo quando o foco recai sobre aliados em contraposição aos mais implacáveis adversários. Na verdade, devemos manter em mente que o povo não é tão incauto, nem tão “senil” quanto muitos ainda insistem em imaginar. Todos devem estar acompanhando o “drama” vivenciado pelo deputado federal Ciro Gomes do PSB. O Partido Socialista Brasileiro, tendo como porta-voz seu presidente, Eduardo Campos, ao que tudo indica prescindirá da candidatura de Ciro à presidência. O nobre deputado, que indiscutivelmente tem sido um aliado ferrenho e leal do presidente Lula nos tempos mais difíceis, como era de se esperar, não se conforma com o fato; tem proferido de sobejo comentários, no mínimo, polêmicos, vem disseminando discursos contundentes imediatamente, é claro, manipulados, distorcidos pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista). São essas manobras retóricas e abjetas que me causam inquietação. Faço aqui, desse modo, algumas considerações. 

Nos últimos anos, Ciro Gomes tem sido um crítico contumaz e severo de José Serra e do tucanato (muitas vezes, elevando o tom da crítica aos píncaros da agressividade) – postura com a qual sempre concordei, diga-se de passagem. Agora, vendo sua pré-candidatura ruir (por iniciativa essencial de seu próprio partido) tem ameaçado mudar o tom do discurso em favor de Serra. A se confirmar tal postura, o aceno pode ser interpretado como uma posição demasiado contraditória sob a ótica da opinião pública, que, talvez, não assimile as declarações com normalidade, atribuindo ao gesto pouco valor ético ou moral. Obviamente parto do pressuposto de que as palavras publicadas na web nos últimos dias “Serra é mais preparado, mais legítimo, mais capaz”, de fato, sejam de sua autoria. Contudo, sinceramente prefiro acreditar que não. Do contrário, teria que admitir tratar-se do supra-sumo da incoerência; pior do que isso, seria uma abominável negação de seus próprios princípios (algo semelhante ao que fez FHC, quando pediu para que todos esquecessem o que ele escreveu no passado – diria até mais lamentável). Ciro, certamente, não mora em São Paulo; não tem acompanhado o desgoverno de J Serra em plagas paulistas e paulistanas (insegurança, educação entregue às traças, transporte coletivo sucateado, logradouros abandonados e imundos, aumento abusivo de impostos, saúde entregue ao ocaso). E todo esse quadro escamoteado pelas mentiras veiculadas através da propaganda oficial; todo esse nefando cenário implacavelmente “temperado” pelo desmando, pela corrupção (CPIs arquivadas na Alesp, a multinacional francesa Alstom envolvida em negociatas e contratos fraudulentos com todas as empresas estatais paulistas – de modo bastante particular o Metrô). O momento é de ponderação, de condutas orientadas pelo equilíbrio, pela sabedoria. Equívocos políticos e estratégicos irreversíveis devem ser, a todo custo, evitados. Aceitar democraticamente pautas e decisões partidárias majoritárias pode ser o melhor caminho a seguir. Portanto, permanecer ao lado da companheira Dilma nessa luta pela manutenção, pela consolidação das conquistas sociais e econômicas implementadas pelo governo Lula, pode representar um ato de grandeza demonstrado por Ciro, no futuro, reconhecido pela grande maioria da opinião pública. De outro lado, por sua trajetória honrosa e vitoriosa na política brasileira, não há como negar a legitimidade das demandas e aspirações do deputado Ciro Gomes. Tal concepção seria de uma inocuidade absolutamente brutal. Contudo, Ciro precisa rever, ou pelo menos refletir mais atentamente sobre certas posições. O deputado afirma, por exemplo, que Lula está totalmente equivocado na busca pela bipolarização partidária no país. O suposto temor é de que o presidente gostaria de retroceder o país ao sistema bipartidário (com a prevalência de PT e PSDB). Trata–se de uma análise totalmente equivocada, que surpreende. Não há argumento sustentável na lógica que corrobore tal assertiva. Lula combateu e derrotou o bipartidarismo durante a ditadura militar. O que o presidente defende, e com absoluta correção, é o confronto direto entre duas forças políticas antagônicas: de um lado o governo Lula (defendido por Dilma) com todos os seus avanços e conquistas sociais e econômicas; de outro o desgoverno de FHC (defendido por Serra), das privatizações espúrias, da recessão, do desemprego, do salário mínimo desvalorizado, do câmbio elevado, dos escândalos políticos e financeiros escamoteados, da miséria, da suprema subserviência ao mercado externo e da baixa auto-estima da Nação. 

O PSB irá anunciar sua posição oficial sobre a candidatura de Ciro Gomes dia 27/05, 17h, SCLN 304 bloco A ent. 63-Brasília-DF (segundo nota no site do partido). Esperemos que não haja por trás de toda essa celeuma uma grande jogada de marketing político com o propósito de fixar a imagem do candidato no inconsciente coletivo. Seria legítimo em termos de estratégia eleitoral, é bem verdade. Porém, inoportuno. Assistam o vídeo abaixo com a reveladora entrevista concedida por Ciro ao jornalista Kennedy Alencar ao programa É notícia da RedeTV e tirem suas próprias conclusões.

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Responses

  1. Não vou ler o seu comentário porque é longo e porque também assisti a entrevista do Ciro. Não gostei da entrevista porque o Ciro é dúbio. Mais claramente falando ficou em cima do muro. Agora quanto a interferência do Presidente Lula junto ao PSB para retirar o Ciro da disputa presidencial esta eu achei deplorável e anti-democrática numa clara demonstração que os petistas conseguem manobrar os candidatos à Presidência da República.

    • Cara Victória. Antes de qualquer coisa, agradeço por sua gentileza em participar, mais uma vez, deste modesto espaço oferecido ao debate democrático. Quanto ao companheiro Ciro, embora discorde de muitas de suas posições atuais, penso diferente. No meu entendimento, Ciro foi bastante direto, fixando seu ponto de vista sobre a decisão do PSB de prescindir de sua candidatura, além de deixar bastante claro que pretendia manter-se na disputa por razões estratégicas. Em relação ao presidente Lula, discordo integralmente de sua colocação. O PSB integra a base de apoio ao governo; Lula é o chefe do governo. Portanto, é natural que o principal líder governista emita opiniões, sugerindo diretrizes. Além do mais, há um equívoco de análise brutal em seu comentário: Lula – e muito menos o PT – não interferiu de maneira direta na decisão dos companheiros do PSB; as resoluções foram tomadas segundo interesses relacionados a estratégias de política local nos estados em que o partido concorrerá ao senado, ao governo ou às assembléias legislativas, necessitando de alianças com o PT. Legítima a solução adotada pelo PSB; legítimo e compreensível o descontentamento do deputado Ciro Gomes. Vivemos numa democracia plural. As opiniões são diversas; as diferenças têm de ser aceitas e respeitadas. Não houve, desse modo, conduta antidemocrática do presidente Lula.


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