Publicado por: jromarq | 08/10/2010

Leonardo Boff apóia aliança entre Marina e Dilma

Seguramente Marina se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental proposto por Marina Silva. Leonardo Boff

A Democracia, por vezes, nos traz sabedoria, por intermédio de caminhos, aparentemente, sinuosos e contraditórios. A vitória de Dilma Rousseff, em primeiro turno, parecia o mais lógico, o mais correto. De um lado estava a candidatura Serra, representando o nefando retrocesso da assuada dos reacionários; de outro a candidatura Dilma, empunhando a reluzente bandeira da continuidade do processo de mudanças estruturais, da verdadeira revolução sociocultural iniciada pelo presidente Lula. Pelo menos aos olhos de quem estava envolvido na luta, era tudo muito óbvio, claro e cristalino. Contudo, o olhar da Democracia é soberano e infinitamente mais arguto, manifestando-se por meio do “silencioso clamor” do povo no momento exato em que o voto é depositado nas urnas.

Afinal, o que determinou o segundo turno? O debate político ou as polêmicas teológicas? O clima acirrado produzido pelo denuncismo oco e leviano, ou os mexericos cibernéticos espalhados, de maneira pérfida, nos últimos dias da disputa pelos votos do primeiro turno? A defesa das questões ambientais, ou o debate acerca de questões delicadas tais como o aborto? Podemos, ainda, acrescentar um aspecto inquietante dos frios dados estatísticos revelados pela apuração oficial do TSE, apimentando um pouco mais essa discussão: 34.213.890 (quase 35 milhões de eleitores, portanto) foi a somatória final dos votos nulos, brancos e abstinentes. Ou seja, número maior do que os votos obtidos pelo candidato tucano (33.132.283) e maior, também, que a votação expressiva recebida pela candidata Marina Silva do PV (19.636.359). É ou não uma parcela substancial do eleitorado capaz de decidir o segundo turno? O curioso é que a imprensa tucana muito pouco – ou quase nada! – refletiu sobre a relevância desses números; como sempre, preferiu manter a postura tendenciosa e manipuladora, tentando transformar Marina Silva no fiel da balança para o segundo turno. Sem dúvida, os votos de Marina poderão ser decisivos, porém a questão é muito mais ampla, muito mais complexa.

Particularmente fico com a sábia lição da Democracia. Fatos ou especulações, pouco importam. A vontade do povo, consciente ou não, nos trouxe ao segundo turno, e com recados bastante claros: não haverá espaço à promiscuidade retórica do denuncismo vazio, e não serão aceitos discursos desprovidos de conteúdo. No meu entendimento, o povo já tomou sua decisão, mas faz questão absoluta de comparar as duas propostas antagônicas representadas por Dilma, com as conquistas do governo Lula, e por Serra, com o descaso e o desgoverno de FHC. Leonardo Boff, filósofo, participante ativo do projeto “núcleos vivos da sociedade” (comandado por Marina Silva) faz uma reflexão bastante apropriada sobre todos esses temas, através de artigo publicado na revista eletrônica Carta Maior. Considero a leitura imperativa àqueles que, efetivamente, estiverem apreensivos com os destinos de nossa incipiente e, ao mesmo tempo, promissora Democracia. Leiam abaixo.

Somos inteiros, mas não acabados

O Brasil está ainda em construção. Somos inteiros, mas não acabados. Nas bases e nas discussões políticas sempre se suscita a questão: que Brasil finalmente queremos?

É então que surgem os vários projetos políticos elaborados a partir de forças sociais com seus interesses econômicos e ideológicos com os quais pretendem moldar o Brasil.

Agora, no segundo turno das eleições presidenciais, tais projetos repontam com clareza. É importante o cidadão consciente dar-se conta do que está em jogo para além das palavras e promessas e se colocar criticamente a questão: qual dos projetos atende melhor às urgências das maiorias que sempre foram as “humilhadas e ofendidas” e consideradas “zeros econômicos” pelo pouco que produzem e consomem.

Essas maiorias conseguiram se organizar, criar sua consciência própria, elaborar o seu projeto de Brasil e digamos, sinceramente, chegaram a fazer de alguém de seu meio, Presidente do pais, Luiz Inácio Lula da Silva. Foi uma virada de magnitude histórica.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise econômico-financeira de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. Para facilitar a dominação do capital mundializado, procura-se enfraquecer o Estado, flexibilizar as legislações e privatizar os setores rentáveis dos bens públicos.

FHC quase afundou o Brasil

O Brasil sob o governo de Fernando Henrique Cardoso embarcou alegremente neste barco a ponto de no final de seu mandato quase afundar o Brasil. Para dar certo, ele postulou uma população menor do que aquela existente. Cresceu a multidão dos excluídos. Os pequenos ensaios de inclusão foram apenas ensaios para disfarçar as contradições inocultáveis.

Os portadores deste projeto são aqueles partidos ou coligações, encabeçados pelo PSDB que sempre estiveram no poder com seus fartos benesses. Este projeto prolonga a lógica do colonialismo, do neocolonialismo e do globocolonialismo, pois sempre se atém aos ditames dos paises centrais.

José Serra, do PSDB, representa esse ideário. Por detrás dele estão o agrobusiness, o latifúndio tecnicamente moderno e ideologicamente retrógrado, parte da burguesia financeira e industrial. É o núcleo central do velho Brasil das elites que precisamos vencer, pois elas sempre procuram abortar a chance de um Brasil moderno com uma democracia inclusiva.

O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Este projeto se constrói de baixo para cima e de dentro para fora. Que forjar uma nação autônoma, capaz de democratizar a cidadania, mobilizar a sociedade e o Estado para erradicar, em curto prazo, a fome e a pobreza, garantir um desenvolvimento social includente que diminua as desigualdades. Esse projeto quer um Brasil aberto ao diálogo com todos, visa a integração continental e pratica uma política externa autônoma, fundada no ganha-ganha e não na truculência do mais forte.

O governo Lula produziu inclusão social

Ora, o governo Lula deu corpo a este projeto. Produziu uma inclusão social de mais de 30 milhões e uma diminuição do fosso entre ricos e pobres nunca assistido em nossa história. Representou em termos políticos uma revolução social de cunho popular, pois deu novo rumo ao nosso destino. Essa virada deve ser mantida, pois faz bem a todos, principalmente às grandes maiorias, pois lhes devolveu a dignidade negada.

Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto que deu certo. Muito foi feito, mas muito falta ainda por fazer, pois a chaga social dura já há séculos e sangra.

É aqui que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra. Marina em sua campanha lançou esse programa. Seguramente se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental proposto por Marina Silva.

Sonhamos com uma democracia social, popular e ecológica que reconcilie ser humano e natureza para garantir um futuro comum feliz para nós e para a humanidade que nos olha cheia de esperança.

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