Menino Brasil

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Quando era criança, matreiro, costumava invadir o quintal do vizinho para pegar goiabas, limões ou, simplesmente, para experimentar a indescritível sensação de “poder”; poder ir além, ultrapassar os limites do mundo adulto; poder ignorar regras enfadonhas; poder apenas. 

Numa dessas incursões, certa vez, pegou o galho de uma árvore. Somente um irrisório galho de árvore. Levou-o, cuidadosamente, para casa e resolveu colocá-lo dentro de um pote de maionese com água, mais ou menos, até a metade. Em princípio, não tinha nenhum propósito; era apenas um gesto não calculado, aleatório. Logo em seguida, depositou o recipiente com a água e o râmulo na janela da cozinha; talvez porque ali fizesse bastante calor, ou porque era arejado, bem alumiado. Pouco importava; não havia razões, procedimentos orientados pela lógica, métodos ou quaisquer outros instrumentos de normalização típicos de gente grande.

Contudo, rapidamente, esqueceu-se do ignoto episódio e voltou à preponderância exuberante da protagonista meninice. Bolinhas de gude, estilingues, guerras de mamona, peladas nos campinhos de terra amassada: cronômetros naturais a contar a passagem do tempo, alterando percepções, mudando o entendimento. E foi assim que, de brincadeira em brincadeira, um dia, lembrou-se do pote, da água e, claro, do singelo râmulo. 

Na cozinha, ao olhar em direção à janela, notou que alguma coisa estava diferente; nada de errado ou esquisito, apenas diferente. Ali, na beirada da janela, não estava mais um simples galho de árvore; várias raízes haviam brotado e ramificado. Ficou surpreso! A visão daquelas incipientes e alvacentas raízes impressionaram-no. Afinal, era criança. Tenra idade, não tinha a menor idéia de que os vegetais eram capazes de se “auto-ramificar”; não daquela maneira, não dentro de um modesto pode de maionese… Com água até a metade.

Era a vida brotando; e como poderia saber que a vida era capaz de produzir raízes? Como poderia saber que a vida pode se multiplicar, alterando sua própria configuração, sua própria estética? Nem tão pouco poderia conceber que o mundo precisava de raízes; que o mundo inventava e, ferrenhamente, apegava-se às suas próprias raízes, imaginárias ou reais. Não sabia que raízes podem engrandecer a alma, mas, também, podem aprisioná-la. E, a despeito de tão absolutamente arrebatadora constatação, as raízes nascem, crescem e morrem; e continuarão crescendo até se exaurirem, tal e qual o bicho-homem.

Então teve uma idéia: tirou o galho do pote e foi plantá-lo no quintal da modesta casa onde morava. Contudo, era criança; tinha que retornar às rotineiras criancices: bolinhas de gude, manonas, estilingues, peladas… O cronômetro natural era inelutável, circunspeto e implacável. 

Certa ocasião, porém, perseguindo uma tarântula gigantesca foi parar no quintal; o mesmo quintal onde, tempos atrás, plantara o galho de árvore. Assim, novamente, defrontou-se com o fenômeno da mudança. O que, antes, fora râmulo transformara-se, agora, em árvore; e a árvore crescia, crescia… De tal modo vertiginoso, a causar deslumbre. 

Os tempos eram difíceis; a ditadura militar impunha restrições, agruras. Mas, crianças são imunes ao vírus da política. O menino e seus amigos não sabiam, não precisavam saber nada sobre idiossincrasias de gente “mal-crescida”. Apenas sentiam que era difícil e, muitas vezes, doloroso crescer. Era difícil ser criança; viver como criança num mundo adulto atormentado com problema inventado de adulto. Portanto, presenciar o refulgente momento de transformação do singelo râmulo em árvore sólida a reafirmar o inexorável espetáculo da vida, trouxe-lhe novas percepções. Inadvertidamente selara-se uma espécie de pacto de amizade entre o matreiro menino e aquele velho galho de árvore; um pacto mudo em que o saber era a senha e o conhecimento diuturno e gradual as inestimáveis oferendas.

A árvore continuaria crescendo. Transformar-se-ia num frondoso pinheiro. O menino descobriria que somos como galhos dentro de um pote de maionese. Um dia cresceremos, produziremos nossas próprias raízes; desesperadamente, então, buscaremos saídas, caminhos ou atalhos que nos levem ao topo do pote. No entanto, o mistério sempre residirá na corda bamba das experiências cotidianas. Nunca saberemos ao certo quando fincar ou extirpar raízes. Se tivermos sorte, experimentaremos sensações relativamente claras de como parar ou como recomeçar. 

Na verdade, sei apenas que a mente precisa de expansão. Em algum momento, o pote de maionese tem que se transformar na “lata do poeta”, e, ali, a alma deverá brotar e ramificar-se até o grande infinito.

Jorge Marques em O Pescoço do Mundo

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